O que faz um bom professor?
Parece óbvio mas não é: professores precisam saber muito bem o que ensinam e um pouco mais. Na maioria das escolas brasileiras, esse não é o caso
João Batista Araujo e Oliveira

Professora (Thinkstock)
Ensino de qualidade
Este artigo faz parte de uma série publicada quinzenalmente em VEJA.com sobre os desafios do ensino fundamental no Brasil — e as estratégias para superá-los.
Os textos são de autoria do Instituto Alfa Beto, que promove oPrêmio Prefeito Nota 10, iniciativa que vai identificar e recompensar o município brasileiro que mantém a melhor rede de ensino. A premiação será realizada no segundo semestre
O que significa saber muito bem o que se ensina? No Brasil, cultuamos o diploma – quanto mais títulos, melhor a pessoa é avaliada e melhor será sua remuneração. As evidências mostram que essa é uma política equivocada: títulos nada têm a ver com a qualidade, desempenho ou impacto do professor. Nem mesmo o nível de conhecimento mais elevado tem impactos positivos sobre o aluno. Na verdade, é mais comum o contrário. Se o professor é mais motivado para a pesquisa científica e conhece os assuntos num nível de elaboração muito elevado, ele tende a usar uma linguagem que não se presta ao ensino decrianças e jovens.
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Saber o que ensinar significa dominar a fundo os conteúdos e o que está por trás deles. É muito mais importante um professor de séries iniciais saber o que está por trás do conceito de propriedade aditiva da multiplicação ou onde reside a dificuldade dos alunos para entender o princípio de multiplicar frações, por exemplo, do que esse professor saber calcular derivadas ou rodar matrizes mentalmente. É muito mais importante que ele saiba como ajudar as crianças a usar e interpretar o sentido de pronomes numa frase ("A mãe dela disse que ela era pobre": quem era pobre, ela ou a mãe dela?) do que conhecer a fundo a gramática histórica ou as teorias linguísticas mais avançadas. Deu para entender? No caso da educação infantil esses conhecimentos são bem mapeados: o professor precisa conhecer tão a fundo quanto possível a psicologia do desenvolvimento, saber utilizar estratégias adequadas para promover o desenvolvimento e saber interagir de forma adequada com as crianças. Além disso precisa ter um bom domínio da língua, um vasto conhecimento da literatura infantil e saber onde localizar recursos. O professor precisa dominar alguns poucos conceitos, mas de forma precisa. Precisa saber os fundamentos, mas não reverenciar teorias ou cultuar os seus proponentes. E, sobretudo, precisa de muita prática.
No caso das séries iniciais do ensino fundamental o professor precisa conhecer a fundo os conteúdos que ensina, as dificuldades mais comuns dos alunos e as razões pelas quais eles têm essas dificuldades. Esses conhecimentos são bem mapeados em algumas áreas, como a daalfabetização de crianças ou do ensino de matemática para as séries iniciais.
No caso das séries finais, um indicador prático é que o professor tenha um conhecimento amplo e preciso das disciplinas que leciona, e um conhecimento um pouco mais avançado dos conteúdos do ensino médio para saber o que o aluno fará com esses conhecimentos. Nessas séries o professor precisa saber contar boas histórias, apresentar sua disciplina em forma denarrativas que envolvam e capturem a atenção de seus alunos.
O governo federal e as faculdades que formam professores no Brasil ainda não se dispuseram a preparar esse tipo de professor para as redes de ensino. Ao invés de propor currículos rigorosos para os cursos, o Ministério da Educação patrocina exames que valorizam mais conhecimentos genéricos e adesão a determinadas ideologias. As faculdades, por sua vez, raramente possuem docentes que conhecem a linha de frente, e limitam-se, nos melhores casos, a compartilhar conhecimentos teóricos nem sempre atualizados.
O que podem os municípios fazer? Aqui há solução, e a solução é simples: elaborar testes de seleção em que os professores demonstrem os conhecimentos sobre o que vão ensinar. Também devem informar às faculdades que formam esses candidatos sobre o que vai cair no exame e sobre os resultados obtidos. Em pouco tempo as universidades se adaptarão às necessidades dos prefeitos. E em alguns anos começarão a chegar jovens preparados para o exercício do magistério.
João Batista Araujo e Oliveira é presidente do Instituto Alfa Beto

(Daniela Toviansky/Guia do Estudante)
Este artigo faz parte de uma série publicada quinzenalmente em VEJA.com sobre os desafios doensino fundamental no Brasil — e as estratégias para superá-los.
Os textos são de autoria do Instituto Alfa Beto, que promove oPrêmio Prefeito Nota 10, iniciativa que vai identificar e recompensar o município brasileiro que mantém a melhor rede de ensino. A premiação será realizada no segundo semestre.
Suponha que você quer criar uma escola de qualidadee sabe pouco sobre o tema. Você não errará muito se contratar um bom diretor – uma pessoa experiente, que já dirigiu uma ou mais escolas por algum tempo, logrou bons resultados é respeitado e goza de boa reputação junto aos pais e professores.
Essa pessoa saberá o que fazer. Depois de entender a clientela que vai servir, ele vai estabelecer o programa de ensino, escolher os professores, criar as normas de funcionamento da escola e acertar a forma de ministrar o currículo. Se já existe o prédio, ele vai determinar o melhor uso dos espaços. Vai adquirir o mobiliário e equipamentos essenciais e vai comunicar ao público a que veio, como a escola funciona, como fazer para se matricular.
Professores, currículo, normas de funcionamento sãoingredientes essenciais. No dia-a-dia, possivelmente esse diretor vai receber os alunos na porta da escola, vai andar pelos corredores e pátios, saberá quem faltou no dia ou no dia anterior, se os professores estão ensinando o que deveriam, qual professor ou aluno está com problema de desempenho e quem precisa de atenção especial. Dificilmente ele passará um dia fora da escola, e, se passar, alguém responderá pela direção na ausência dele. Nada disso é fácil, mas nada disso é segredo. O DNA da boa escola é conhecido. E ele tem diferenças importantes em relação ao DNA da escola ruim. Esse DNA está na qualidade do currículo, nas regras para escolher professores e nas regras de funcionamento da escolaMontar uma rede de escolas públicas significa fazer isso em escala, criar regras e mecanismos que assegurem – ou ao menos permitam – que cada escola, se bem gerida, tenha a qualidade desejada – o nível de desempenho mínimo estabelecido pelo currículo e que deve corresponder ao que a sociedade espera dos indivíduos ao final de cada etapa escolar.
Estabelecer o currículo não é muito diferente numa escola ou numa rede – os critérios devem ser os mesmos. Na maioria dos países, isso é estabelecido em nível nacional.
O primeiro desafio consiste na escolha do diretor. Nos países desenvolvidos, há um sistema predominante — o de carreira — e outro que funciona em alguns poucos países — o da escolha por mérito —, igual ao que se usa na escolha de executivos de empresas. No Brasil, há seis sistemas diferentes, e as carreiras são exceção.
Contratar professores de nível adequado é mais difícil, pois depende de uma série de fatores: nível salarial, carreiras, critérios para elaboração das provas, existência ou não de estágio probatório. Os países com elevado desempenho em educação sabem fazer isso muito bem. No Brasil, há algumas carreiras públicas que conseguem contratar pessoas qualificadas – não há segredo.
Estabelecer regras e um regimento comum para o funcionamento da escola também é algo que não apresenta enormes desafios, embora não seja prática corrente nas redes de ensino: tipos de escola, localização, regras para matrícula ou transporte escolar, insumos, calendários de aulas, provas e reuniões, obrigações mútuas da secretaria e das escolas, o que é comum e o que pode ser diferenciado.
As regras variam muito. Por exemplo, há países em que a escola pública é administrada pelas igrejas, como no caso da maioria das unidades da Holanda e parte das existentes na França. Os professores são da rede pública. Em outras nações, há o sistema de "charter schools", escolas públicas operadas por provedores privados.
Também variam as regras de alocação de recuros às escolas. Há sistemas em que os recursos são idênticos para os alunos e outros em que os recursos variam de acordo com as características da escola, dos alunos ou de seus resultados.
As regras têm motivações diferentes – sejam históricas, culturais, ou pragmáticas – para gerar competição como instrumento de busca de qualidade. O ponto central: as regras criam o DNA da escola, e a sabedoria na criação e alteração de regras é fator determinante do resultado das escolas.
E há a operação – o sistema de gestão, com os variáveis graus de autonomia e controle que as escolas recebem e as formas como são supervisionadas.
O DNA de uma rede de ensino é algo complexo e que exige profundo conhecimento de planejamento educacional e gestão de redes. Não existe um DNA único – uma única forma de criar redes. Mas existem formas mais ou menos eficazes, mais ou menos adequadas. Os princípios gerais da administração, os resultados e as melhores práticas constituem balizamentos suficientes para quem quiser aprender.
João Batista Araujo e Oliveira é presidente do Instituto Alfa Beto
https://veja.abril.com.br/noticia/educacao/o-que-faz-um-bom-professo
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